Fazem-se dias que o marasmo desta cinzenta cidade me alenta. Observo a paisagem com certo pesar, um já cansado, aliado a todas minhas amarguras colhidas com muito esmero pela vida. Este rito de tão habitual, já se tornara chato e demasiado repetitivo, certo de cunho entediante. Prossigo assim, com a minha tarefa. Levanto com a dor já peculiar, face às tragédias acidentais diárias. O sofrer nada vem acrescentar neste ser, somente ao se mover já percebe que atura coisas as quais não lhe acompanham estas, nunca ou jamais são, ou serão de bom grado. A dor só lhe vem a atordoar, assim, já o mal intenciona perante certos assuntos ou fatos, apesar da dor contínua, tenta levar consigo, nada além do que uma não neutralidade dos fatos e de tudo que lhe acerca, uma tentativa frustrante de ser o que ele almeja, alguém que seja cabal à sociedade.
No seu dia decididamente penoso, tenta com passos entranhados de consternação chegar à famigerada válvula de escape, mas somente faz-se uma vista turva, porém calma, deste torpe observar; nada além do que um banco de madeira, moldado na névoa com a leve brisa que lá bate, por diferenciados tons de cinza dos demais que compõem ao seu redor, que colorem o vazio. Árvores ao outono corroboram com o panorama melancólico, desfazem-se de suas folhas já secas que são levadas pelos ventos sutis, porém de poder cortantes, cria um rastro de languidez como não se vê até nos cantos mais sombrios da Terra.
Reparo a despeito da grande névoa e no assolado nada se avista não muito longe dali, com certa dificuldade, dois homens a caminhar. Andando com uma proximidade, cabisbaixos com tristes feições, estes parecem ter em seus percursos um destino em comum, o anteriormente citado banco de madeira. Confluem-se para a mesma direção, cada vez mais diminuem sua velocidade rumo aos seus destinos, aparentam um ar de desânimo. Caminham com dificuldade, com certo pesar em alcançar os seus destinos, evitando ao máximo a pressa, com certo cuidado ao traçar tais passos decadentes. Finalmente após penosos passos eis que se encontram, com um instante de estranheza ambos ficam estáticos e, mas ainda por alguma razão não se encaram, são segundos apreensivos onde se percebe resmungos, palavras ditas em baixo tom e volume, ou melhor barulhos de agonia e dor entranhados que mal consegue-se entender algo.
Por um momento, por assistir tais seres enfadonhos em seus devidos comportamentos semelhantes, isso lhe despertara uma curiosidade jamais vista. Começa a se questionar o que levaria dois indivíduos ao meio de um cenário inóspito, o desânimo lhes era comum. Aproximara-se, e rapidamente nota um aumento de intensidade dos ventos, o que antes era uma mera brisa de outono, se transformara em cortantes ventos de inverno. Ambos não vêm de diferentes posições, se encontram quase juntos a passos curtos e desanimados, parecem confluir para o mesmo ponto, o tal banco da praça. Assim se desperta alguma atenção os gestos e facetas de ambos. No primeiro momento, logo se nota um clima tenso, parece de fato que os dois estão a brigar, justificado pelos movimentos bruscos e pela impressão de uma austera discussão. Embarcado a tudo isto está a não troca de olhares, que carrega mais uma pesada característica a tal embate.
Busca-se, portanto primeiramente o entender do porque da discussão. Faz-se necessário uma aproximação aos objetos de estudo. A aproximação fora feita de forma precária, sem métodos ou meios furtivos, para que se disfarçasse a presença. Enquanto era feito, fora notado certo diferenciar dos ambientes. Para o observador, tais características ulteriormente descritas se fortaleciam mais e mais, de acordo com a sua aproximação para com os indivíduos. Um tanto frio, um tanto sombrio, um tanto; familiar. Reconhece neles suas características que agora lhe são pertinentes. Logo, distinguiu seus semelhantes e sem esforço algum, os definiu. Eis o embate de tanta infelicidade e frustração, na descrição não se sabe diferenciar qual é qual.
O encontro finalmente se fez, tal feito se deu em circunstâncias propicias, face à desgraça que cada um carrega em suas costas. Este fardo os atrapalha, mas ambos não o abnegam. Vestem cada um com seus motivos e peculiaridades, estes esquisitos portadores de tal qualidade, embebidos de estranheza pelo ser comum, se confrontam orgulhosamente de qual seria o maior portador da tristeza e consequentemente da infelicidade. Portanto temos os dois frente a frente, observados por um próprio mensageiro da amargura.
O primeiro mostra a tristeza após seu nome. O fulano já fora um jovem, mas não muito diferente do como que se encontra agora, este já carregava por longos a fio o seu enfadonho mal estar presente. As impregnadas adversidades e desgostos foram os grandes pesares de sua vida, já sofrera por ele, já fora o feitor do sofrimento e também por ação de outros os que colocaram qualquer objeto ou atitude acima de tudo, colocando outros priores, em detrimento da sua utópica felicidade. Assim construiu-se este personagem, a tragédia o criara e o encaminhara.
O primeiro se desmonta em uma série de facetas durante o passar de sua vida. O traçar de alguns fatos, um pequeno histórico de sua vida se faz válido. Nesta ligeira apresentação consegue-se que se desvenda um pouco de seu caráter e comportamento. Passam pelas suas frustrações pessoais, estas incluem certas desavenças familiares, sem falar nos frustrações profissionais, além romances frustrados, terminados de forma não comum, apenas tratado de uma forma um tanto, sem devida importância. Ser que teve seu “coração” jogado ao léu por tantas vezes e de maneira cada vez mais surpreendentemente cruéis, se abnega a felicidade ao tentar encontrar alguém que lhe venha a fazer o dito “bem”. Tranca-se de tal forma que o faz criar a câmara do rancor, esta às vezes não tão raramente se rompe, ferindo pessoas ao seu lado, muitas vezes acerta veemente nos tais tentadores. Assim ele pela vida toda, por uma série de tragédias se esconde do mundo, se esconde de tudo. Cria ou há tentativas de criar uma fama de mal humorado, com o objetivo de não ser ferido mais pelos demais e de também não machucá-los. O plano de ser hermeticamente fechado, ele o faz com muita eficiência, o garante com anos a fio de experiência adquirida que perdura até os dias de hoje sem quaisquer menções a sorrisos e até a felicidade, pelo menos aos momentos que sua memória não lhe é falha.
Já o que tem a tristeza na frente de seu nome, se mostra um tanto mais nervoso, mais tenso, vide sua reclamante voz ecoando ao redor fúnebre. Vira-se repentinamente e os exclama, seus desgostos pomposos, dão ênfase a eles por sua intensidade. Num curto espaço de tempo ele afirma que teve sua vida transformada, o que antes passará de um jovem no qual conhecera a tal felicidade a perde completamente em fração de segundos, se comparados ao tempo que levara para o cultivo da mesma.
Portanto, aqui se faz a síntese de muitas mágoas, onde a intensidade se apresentara de tal modo fulminante que o deixa atordoado perante as coisas que o acerca. Fato é o de que sua vida nunca fora mais a mesma, claro, pela simples mudança de nuanças comportamentais se transformara em alguém amargo, pronto para reclamar do e para o próximo, pronto para confirmar as suas tristezas frente aos demais, que por ele, não são tão azarados. Fora uma abrupta mudança, conta o nosso caipora, descreve-a com tanto ódio em seu olhar que perpassa para os demais um pouco da sua raiva extravasada. Isso faz crie em torno de si um campo que expele qualquer tipo de tentativa de outro alguém, ter algum contato um tanto amigável. Essa força devastadora com o tempo tende a perder intensidade, vide que os acontecimentos trágicos em sua vida parecem vir diminuindo.
Não estão perto do fim suas tristezas, tão pouco de uma diminuição dos eventos. Clássica é a pergunta, sobre quanto tempo dura a má fase, mas por desespero o dito cujo se faz outra pergunta a: o que fizera para merecer, ter o privilégio de obter tamanha carga de insatisfação com tudo?
Permaneço lá, atônito com tal situação, estupefato com tamanha desgraça que se fez aglomerada em um único ponto. A tristeza ali entranhada em ambos os seres parecem já fazer parte, não mais são de sua característica normal, diria primária. O fato é, de que a tristeza normalmente se faz presente de maneira temporária, ainda que persista em ir e voltar num movimento pendular odioso que teima em repetir sob o sujeito, causada por determinados fatos ocorridos não almejados ou desejados, normalmente, o contrário. Por algum tipo de maldição ela permanece lá, fixa em vossas vidas castigando-os de forma.
Depois de ver toda a história, sentir o que é ser dominado pela angustia de nunca sorrir, algo me fez pensar que lá terminaria que deixaria que a tristeza acabasse comigo, o domínio dela seria fulminante, que não sei se terminaria como qual ser, mas que terminaria lá, como semelhante em alguma característica, ou como um médio termo de ambos, um elo que culminaria na ampliação para um trio. Pois isso trouxe um panorama para o futuro que abala qualquer um, conviver somente com a tristeza e a amargura não faz parte dos planos de ninguém em sã consciência. Após tal pensar, noto que a proximidade era grande com os dois indivíduos, o que leva a um simples questionar, o que se eu estaria a caminhar pelo mesmo caminho traçado. Essa questão não consegue nem lhe tomar horas, pois é tão obvio que a avenida parece ser o mesma, que por um momento surta a gritar ordens pelo contrario, a fim de que ele não caia no mesmo destino. Força de maneira veemente que teu futuro não seja desta forma, sob tal circunstância faz um juramento para consigo mesmo, que não teria o mesmo fim, mesmo com a desconfiança de que não irá conseguir cumprir tal promessa, mesmo podendo ser acusado de perjúrio posteriormente, arrisca-se a não ter esse final enfadonho.
Espantado com o que lhe aflige foge da névoa que já estava o cercando, deixando para trás toda mágoa que vinha lhe bater a porta por qualquer motivo, seu futuro é incerto. A única certeza que se tem é que os destinos são dois, a glória da promessa cumprida ou o de um triste e solitário lutador.